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Overland nos Pirinéus

Artigo escrito pelo Mário e publicado na Revista Overland Portugal nº7

Estávamos no 11º dia de viagem, 9 dos quais em TT pelos Pirenéus. A última noite foi especialmente difícil, só conseguimos parar às 22h. Zona muito turística e com muitas interdições nos caminhos fora do principal. E o dia de hoje não parece diferente, foi aliás a pista mais turística por onde passámos, a que liga Esterri d’Aneu a Baqueira. Vale muito bonito e claro, repleto de famílias. Parece que fugiram todos para aqui! Sabia que tínhamos de sair desta zona para encontrar um local para ficar e desta vez cedinho para podermos tomar banho e fazer tudo com calma. As expectativas para encontrar um bom local a tempo e horas não eram boas, ainda tínhamos de atravessar a pista de Salardú-Arrós e possivelmente passar o túnel de Vielha e agora estava na hora do lanche! Como é costume procuramos um local onde não haja pessoas, para estarmos mais à vontade, mas tem sido especialmente difícil. Então, pouco depois de Salardú, vejo uma pista a subir pela direita e o que me chamou a atenção foi a placa. Não era de interdição como era costume, dizia “Recomendat 4X4”! Parei e fui ao mapa do Overlander. Nas imagens de satélite que tinha descarregado para o Orux mostrava um caminho que continuava a subir, mas seria transitável? Fui ver no mapa topográfico do Explore do Overlander e realmente havia uma pista e ainda com alguns 10kms! É claro que tínhamos de ir investigar! Ainda por cima com a placa a “pedir” para seguirmos por ali…

E assim foi. O caminho pouco a pouco começou a ficar mais exigente e mais estreito, mas continuava a subir. Os miúdos cada vez mais cansados a precisarem mesmo de descarregar energias, mas o caminho era lento. Até que chegamos a um enorme prado, já a 2000 metros de altitude. Dois veículos 4×4 estacionados e um Cherokee a descer uma inclinada descida cheia de pedregulhos. Era um francês. Fui ter com ele e perguntei-lhe se o caminho continuava e disse-me que sim, mas achava que os nossos veículos não passavam. Tinham rodas muito pequenas dizia ele. Efetivamente o Cherokee francês tinha uns 33” mas o tamanho dos pneus não é tudo pensei cá para mim. Fui ver o caminho a pé e era realmente difícil, mas nada que não se fizesse. Depois de por 10l no Isuzu, já estava na reserva e não tinha vontade de ficar pendurado a meio da subida, lá fomos devagarinho. Na parte final da subida ainda tive de parar porque umas vacas lembraram-se de passar naquele preciso momento! Mesmo na parte mais inclinada!

E o caminho continuava. E a minha incredulidade também. Em plena serra dos Pirenéus, um caminho daqueles, aparentemente transitável e com aquele ambiente de alta montanha é indescritível. Já tínhamos passado por locais igualmente impressionantes que já não sabia bem o que esperar daqui. Parece que quanto mais avançamos no percurso mais impressionante se torna. E depois toda aquela expectativa, o que será que vamos encontrar no fim do caminho? É uma sensação maravilhosa. Aliás é esta a principal razão por gostarmos tanto de viajar por nós, sem guias e sem organizações. Há sempre aquela sensação de descoberta que tanto nos enche. Parece que estamos a descobrir algo novo, apesar de estarmos na Europa onde já está tudo mais do que descoberto e documentado. Mas antes de contar o que encontrámos no fim daquele incrível caminho, vamos retroceder um pouco, até onde tudo começou…

Tudo começou em casa, neste ano de 2020, o ano do Covid que nos trocou as voltas no que toca a viagens. Já tínhamos planos para a viagem deste ano que seria bem longe da casa, mas ficámos receosos, com medo que as fronteiras fechassem e decidimos ficar por Espanha. Como tínhamos o projeto de atravessar a Península Ibérica por fora-de-estrada por terminar, já tínhamos realizado de Lisboa a Ávila, resolvemos tentar concluir o que faltava, fazendo os Pirenéus desde Llançà e ligando depois a Ávila. Foram muita horas e dias a marcar percursos e waypoints e depois de tudo colocado no GPS tínhamos 89 percursos com cerca de 6000kms no total para passear! E muita expetativa sobre o que iríamos encontrar.  Claro que não íamos fazer todos, era só para termos margem de manobra.

Depois foi a preparação do carro. Mais uma vez, algumas alterações ao sistema de arrumação de modo a conseguirmos levar tudo o que era necessário e o principal facilmente acessível. Ferramentas, material de resgate, roupa, comida, utensílios de cozinha, brinquedos, bicicleta e carrinho dos miúdos e todas as outras coisas. E tinha tudo de caber na pickup! Felizmente a tenda de tejadilho liberta muito espaço que seria usado para colchões e sacos cama o que é uma grande ajuda. Mas desta vez íamos com dois pequenos grandes upgrades. Um bloqueio ao diferencial traseiro e uma lâmina adicional atrás. A lâmina adicional fez uma enorme diferença, principalmente em grandes inclinações. O Isuzu ficou muito mais estável, mesmo em estrada com a carga que levávamos. O bloqueio, bem, para esse é preciso que os caminhos sejam propícios ao seu uso. Estava com essa expetativa também e felizmente pude usar algumas vezes! As primeiras 27 horas são as que custam mais. Atravessar Espanha por autoestrada! Mas já sabemos como é e não há outra forma. Chegados a Llançà, começa a parte interessante da viagem e desta vez tínhamos companhia nos primeiros dias, O Tiago e família, amigos que já nos têm acompanhado em alguns passeios, juntaram-se a nós.

Quando começámos a subir os Pirenéus junto ao mar, nem parecem as enormes montanhas que são, pelo menos para quem as conhece. Imensas florestas a perder de vista, muitas hermitas que davam excelentes locais de pernoita ou descanso e uma maravilhosa praia fluvial na albufeira de Boadella, com um acesso de cortar a respiração! Albufeira a rebentar pelas costuras e um caminho estreitíssimo que parecia que ia desabar para dentro de água a qualquer momento! Mas prontos faz parte. Teria sido um lindo local para pernoitar, mas dado que do outro lado passava uma estrada achei que não estávamos suficientemente escondidos e voltámos para as florestas para passar a noite.

Logo ao segundo dia podemos experimentar o ARB! Não foi a única vez que usámos, mas foi esta a mais interessante de todas e já vou contar porquê. Já estávamos a entrar na zona mais alta dos Pirenéus, quando começamos a ver junto ao caminho pequenas estatuetas, pareciam de gnomos, sete anões, por aí. No cimo, uma roloute, com cabeças de bonecos penduradas por todo o lado, até uma cabeça de porco…! Havia bonecas penduradas nas árvores, lixo espalhado, umas peças de roupa estendidas, nem sei o que seria aquilo! Passámos porque o caminho continuava e ninguém apareceu a mandar-nos embora. Infelizmente estávamos tão surpresos (ou assustados!) que que nem nos lembrámos de parar para tirar uma fotografia e registar o momento. E logo a seguir veio a passagem difícil! O caminho foi-se tornando cada vez mais difícil e quase nem se via no meio da vegetação. E nós a pensar que não queríamos voltar para trás por aquele local outra vez! A passagem era difícil, um enorme degrau de pedra em desnível acentuado, mas fazível com calma e um bloqueio traseiro que ambas as pickups tinham. A partir daqui, íamos entrar nos 2000m. Nos grandes e majestosos Pirenéus. 

Nesta viagem como em muitas outras fazemos questão de progredir o máximo por fora-de-estrada, o que por vezes obriga a andar às voltas. Numa dessas vezes, pouco antes da serra de Cadi-Moxierró, apanhámos mais estrada do que antevi por muitos dos caminhos estarem cortados devido a derrocas. Decidimos então tentar fazer uma volta mais a sul, mas claro teria de ser à descoberta. E foi uma boa oportunidade para experimentar os mapas topográficos do Overlander. Criei alguns waypoints por zonas com caminhos de terra e fomos andando evitando tudo o que era estradas. Nestes locais as imagens de satélite não servem para nada, não se vê qualquer caminho devido às florestas muito densas. E muito que valeu a pena. Atravessámos a serra de Catllarás por caminhos já com alguma dificuldade e ainda tomámos banho numas piscinas naturais no rio Las Ribas. Os miúdos adoraram, até tinha mini escorregas de pedras! A noite foi numa clareira no cimo da serra, rodeados de cumes pontiagudos e floresta de pinheiros.

Ligação feita e o percurso seguia para norte, direção Andorra. Mas antes tínhamos a serra de Cadi-Mixeró! Para aqueles que vêm a Andorra por Lleida, dificilmente passa despercebida esta montanha principalmente quando vista de La Seu d’Urgell. Eu quando marquei o percurso, estava na dúvida se seria possível circular fora-de-estrada, dado estarmos num grande parque natural, mas para nossa grande satisfação pode-se circular nas pistas principais e especificamente marcadas e era exatamente aquilo que tinha planeado. É claro que a paisagem é qualquer coisa. Só tivemos pena de no dia seguinte, a pista que tinha marcado, o Cami de Torcarre, estar em desuso há muito tempo e ser impossível de passar com veículos 4×4. Só se consegue de mota e BTT. E só o percebemos depois de cortar umas quantas árvores no meio do caminho e de passar em encostas onde o caminho era à medida dos veículos. Eram só algumas dezenas de metros por ali a baixo!

E agora íamos entrar em Andorra! Apesar das inúmeras vezes que cá vim, não podíamos deixar de passar, nem que fosse para atestar as pickups a menos de 1 euro cada litro. Que saudades destes tempos. Tinha marcado um percurso de entrada e saída de Andorra por fora-de-estrada e sabia que a saída pela localidade de Tor era possível, mas acerca da entrada a sul por pista, junto à Naturlandia, não tinha encontrado muita informação. E confesso estava um pouco admirado acerca da possibilidade de existir mais esta entrada em Andorra fora-de-estrada! Mas lá fomos. Depois de almoçarmos junto ao Dolmen da cabana del Moro, muito engraçado e bem conservado, começámos a subir em direção a Andorra. E não é que perto dos 2000m encontramos uma grande pista com placas e tudo que vem do mirador de Pla de Llet direitinho para a fronteira? Mas o curioso era o estado do caminho. Não estava de todo em bom estado! Via-se que tinha muita passagem de veículos 4×4, o que me deixou descansado. Íamos conseguir entrar em Andorra por fora-de-estrada afinal! Mas agora tínhamos outro problema. Estava quase a noitecer e não havia qualquer possibilidade de ficar por ali. Seguir para Andorra mais difícil seria arranjar um local de pernoita e parques de campismo, além de não ser a nossa onda, já tínhamos visto que estavam a abarrotar e menos vontade tínhamos de os usar. Fomos então para o Pla de Llet. A estas altitudes, a serra esta praticamente despida de árvores e era necessário para ficarmos seguros encontrar um local com floresta. Uma rápida inspeção nos mapas e reparo que junto a este miradouro existem muitas florestas e seguimos então para lá. E mesmo que o local não tenha sido dos melhores, acabámos por ficar num caminho semi-abandonado, as vistas com o por do sol no caminho até ao miradouro mais do que compensaram tudo o resto.

Mas se achava que o melhor da entrada de Andorra era aquilo, o que já era muito bom diga-se, nada me preparou para o que viria a seguir. No dia seguinte seguimos a pista para Andorra e quando chegamos à fronteira reparo num caminho que segue pela direita e que continua a subir, mesmo pela linha de fronteira. E nada de interdições nem nada disso. E agora até já se veem outros 4X4 e ATVs, algo bem diferente dos caminhos que temos apanhado até aqui. No mapa tinha marcado esta pista, mas dado que ia tão para cima nunca pensei que fosse possível. E mais uma vez lá fomos nós investigar. E não é que o caminho, que diga-se numa das últimas subidas era bastante inclinado, vai mesmo até ao ponto mais alto daquela zona a 2600m? Escusado é dizer como nos sentimos. Parece montanhismo, mas de 4×4! E aquelas vistas… incríveis mesmo! Sensação indescritível. Como é que depois de tantos locais fascinantes por onde temos passado, o percurso ainda nos conseguia surpreender desta maneira! Eu já pensava cá para mim: “Pronto este deve ser o ponto alto da viagem sem dúvida!”. Mal sabia eu…

 

Andorra foi meramente de passagem, mas nem parecia que estávamos no ano do Covid tal era a afluência de pessoas no centro de Andorra la Vella! Seguimos diretos para La Massana, onde mesmo na fronteira com Espanha, a 2300m, apanhámos a pista que desce em direção à castiça aldeia de Tor, embrenhada no meio de altas montanhas de 2800m. E nem estrada tem ainda o que lhe dá um carácter ainda mais interessante! De notar o ponto central de todo esta vale, o Roc de Llumeneres. É parar e tirar fotografia, impossível não o fazer! Mais à frente conseguimos a incrível proeza de parar para passar a noite a meio da tarde. Ao fim de 6 dias de TT, até que enfim podemos brincar, visitar a hermita Santa Maria de Buiro e tomar banho de chuveiro. Para esta viagem trouxemos um chuveiro de bomba da Decathlon que aquece ao sol e que funciona muito bem. Se a água não estiver quente o suficiente, basta aquecer um bocadinho no fogão e temos um duche quentinho. Foi do melhor que já arranjámos para banhos.

No dia seguinte continuamos o percurso, desta vez já dentro do Parque nacional d’Alt Pirineu. Mas curiosamente, foi já fora do parque o que mais nos surpreendeu. O percurso que tinha marcado descia para sul até Organya para depois voltar novamente a subir para Sort. Possivelmente até deve ser uma volta interessante, mas dado que pelos meus cálculos já não nos sobrava muito tempo para realizar o resto do percurso, tentámos fazer uma volta mais curta sem passar por Organya. Claro que sem percursos marcados, era mais uma vez navegação à vista. O que não esperava é que sem saber, fizemos um dos troços mais espetaculares da viagem. Aqui não era tanto um determinado local como aconteceu à entrada de Andorra, mas sim um conjunto de pistas com cerca de 40kms na sua totalidade, que por seguirem continuamente no cimo dos montes à volta da cidade de Taús, nos deslumbravam com a paisagem. Mas o dia ainda nos reservava mais uma surpresa, uma que iria destronar tudo o resto até então!

Depois de Taús, entramos na Serra de Baumort que é um espaço de interesse natural. E lembram-se de ter dito que saímos do percurso que tinha marcado para fazer uma versão mais curta? Pois bem, foi aqui que encontrámos o percurso original, mas fiquei também a saber que não poderia ter vindo por ele! Como acontece na maioria dos parques naturais e zonas de interesse natural em Espanha, tem um ou dois caminhos possíveis e os restantes com placas a interditar a passagem e o percurso que tinha marcado originalmente vinha por um desses caminhos. É uma das dificuldades da marcação em casa. Como já é costume connosco, o fim do dia aproximava-se e com ele a necessidade de encontrar local de pernoita, o que estar numa zona protegida com tantos caminhos interditos à circulação não nos ajudava em nada. Até que aparece um caminho na direção dos penhascos e sem qualquer placa a interditar a passagem. Até achei estranho, mas olha, fomos ver. No mapa não conseguia ter a perceção real da dimensão dos penhascos, mas quando começamos a descer, bem… um enorme penhasco de 650m com o caminho a serpentear por ali abaixo. A adrenalina já se sentia. Era melhor ir ver a pé, nas imagens de satélite indicava uma espécie de hermita no fim do caminho, mas não sabia se tinha passagem para as pickups. Lá fui eu, o Tiago e os miúdos mais crescidos. A caminho encontramos umas pessoas a subir e por ironia do destino explicaram-nos que que eram os donos das casas lá em baixo. Um casal muito simpático e o pai de um deles que ficaram muito admirados em estarmos ali com os veículos. Deixaram-nos completamente à vontade para dormir lá em baixo, apenas para termos cuidado com os burros que andam soltos! Faltava agora saber como era o local para estacionar e montar acampamento. Fomos buscar os veículos e devagarinho fomos descendo. O caminho era estreito e em mau estado, com muita pedra solta, mas com calma fazia-se bem. A parte mais difícil era uma curva em cotovelo muito fechada que implicava uma manobra de inversão, e isto com o penhasco mesmo ali! A vista era surreal e a possibilidade de poder ficar ali a dormir era um sonho. Encontrámos um pequeno largo por baixo de umas ruínas de um antigo aldeamento e com uma vista de cortar a respiração. Atrás de nós e do aldeamento, uma parede de rocha com 100m de altura com pequenas grutas que em tempos poderiam servir para guardar cereal e outras necessidades. Muito possivelmente o melhor local de pernoita onde já fiquei de 4×4, pensei eu. Melhor só a fazer alpinismo! E melhor de tudo, chegámos a tempo de ver o sol a desaparecer por detrás dos montes rochosos da serra de Baumort com os seus enormes desfiladeiros. Que luxo!

No outro dia de manhã tivemos mais uma surpresa. Aqueles burros que os donos tinham falado, bem, resolveram vir visitar-nos de manhã. Só que não quiseram só ver! Literalmente plantaram-se no meio de nós. Os miúdos nem sabiam se haviam de estar entusiasmados ou assustados, nunca tinham visto tanto burro junto. O engraço foi a manobra para irmos embora. Os donos tinham-nos pedido para não deixar que viessem atrás de nós, principalmente um mais novinho, e então tivemos de ir com eles até uma cerca para ficarem fechados, que de pouco ou nada servia dado o estado da mesma. E sendo burros, de burros não tinham nada e já percebiam o esquema. Acabou por ficar o Tiago para trás e com uma corrida lá conseguiu sair sem que os burros viessem atrás de nós. Enfim, uma aventura.

E estávamos de barriga bem cheia, os últimos dias tinham sido recheados de experiências fantásticas e agora ao 8º dia nos Pirenéus, íamos novamente rumar a norte para contornar o Parque Nacional de Aiguestortes junto à fronteira com França. O percurso consistia numa pista que ligava Baro a Espot, mas que no meio apanhava estrada. Eu sabia que havia um caminho que seguia pelo cimo até a um cume, la Torre de Cabdella com 2400m, mas em casa achei que estaria interdito dado a altitude e não marquei por aqui. Mas quando chegámos ao início deste troço, não havia qualquer interdição e o caminho até estava em bom estado. Resolvemos seguir por ali e foi a melhor das decisões. Paisagem incrível em modo 360 graus! O caminho seguia mesmo pelo cimo dos montes redondinhos até que tivemos que descer e apanhar a pista que vinha de Sort. E foi aqui que as coisas complicaram. Era uma antiga estação de ski, já abandonada e o caminho serpenteava por ali abaixo. Sem árvores, só relva rasteira e uma encosta inclinada. Chegámos a um ponto em que o caminho ficou tão estreito que tive de parar e ir ver. Percorri os 4kms até ao caminho principal, tinha de ter a certeza que podíamos passar dado ser impossível dar a volta. Depois telefonei à Ana e disse-lhe para descer com o Isuzu! Devagarinho em redutoras e com especial cuidado nas curvas em cotovelo e lá passámos mais esta dificuldade. Agora era encontrar um local para pernoitar, mas não foi nada fácil. Aliás, foi a noite mais difícil de todas. Só conseguimos arranjar um local já de noite, pelas 22h! E no meio de um caminho semiabandonado. Estas situações são sempre difíceis, principalmente com os miúdos pequenos, é bastante difícil para eles. Mas são situações que acabam por fazer parte neste tipo de viagens. Às vezes acho que as nossas viagens são mais estilo Raids do que propriamente passeios tal é a hora tardia a que costumamos parar para dormir. Mas existe uma razão para isto. Encontrar locais idílicos para pernoitar não faltam, mas para nós a segurança vem em primeiro lugar e, portanto, quando escolhemos um local para passar a noite tem de ser muito bem escolhido e escondido. E claro, nem sempre é o mais bonito. Felizmente que o Tiago e a família já conhecem estes procedimentos de outros passeios e entendem perfeitamente estas questões.

A nossa viagem até aqui tem sido um acumular de sensações e experiências incríveis. Apesar de alguns momentos menos bons, geralmente associados à demora em achar o local de pernoita ideal, o certo é que quanto mais avançamos mais espetacular tem ficado. E aquela noite nos penhascos da Serra de Baumort já estava em nós como a cereja em cima do bolo desta viagem. Mas às vezes o destino prega-nos partidas e ao 9º dia nos Pirenéus foi uma daquelas que jamais esquecerei. Se bem se lembram, estávamos a subir aquele caminho com a placa “Recomendat 4×4”. E já tínhamos passado a subida que o francês dizia que não conseguíamos subir com as pickups e onde umas vacas se lembraram de passar mesmo na parte mais inclinada onde tive de parar o Isuzu. Até a Ana teve de sair para ir ver quando poderia arrancar, eram tantas e não podia parar novamente, tinha de fazer tudo de seguida! A partir dali era um pouco mais fácil o caminho, apesar de muita pedra e de ser bastante estreitinho.

A dado momento, já no cimo, umas ruínas. Começando a olhar em volta não era só uma casa, mas várias construções espalhadas pelo vale e com restos de linhas de comboio. Depois de investigar mais tarde no mapa vim a saber que eram as minas de Liat, antiga mina abandonada o que explica existir um caminho até ali. O caminho ainda continuava, mas não conseguia ver até onde, tinha uma pequena depressão. Com a adrenalina ao rubro, dei uma pequena corrida até ao cimo e… fiquei incrédulo! Um lago, um enorme lago de alta montanha encrustado numa depressão rodeado de montanhas. E o melhor de tudo, o caminho ia mesmo até à beira de água e tinha um largo, mesmo perfeitinho para montar acampamento. Parecia impossível tal coisa em plena Europa! Não havia hipótese, tínhamos de ficar ali, a 2300m de altitude, naquele lago de montanha, isolados de tudo e de todos e com um caminho difícil a condizer, que nem todos se atreveriam a fazer. E desta vez com tempo para tudo, brincadeiras, banho no lago, lanche e antes do jantar ainda fizemos uma caminhada até um outro lago ali próximo aproveitando para conhecer um pouco a região. São por estes momentos que gostamos tanto desta forma de viajar. A sensação de acordar naquele lugar é indescritível! E para todos os efeitos estávamos a pouco mais de um dia de casa…

Mas, por mais bonito que fosse o local, tínhamos de continuar, outros caminhos e paisagens nos esperavam. Seria também a despedida da zona mais alta dos Pirenéus. Descemos pelo túnel de Vielha, necessário para transpor dois dos grandes parques naturais dos Pirenéus, o Posets-Maladeta e o Aiguestortes, apenas possíveis de conhecer através do alpinismo ou montanhismo como fiz há alguns anos atrás. Os enormes pinheiros e florestas verdejantes dão lugar a árvores mais baixas e vegetação rasteira. E já se nota os rios secos e regos típicos de zonas desérticas à medida que nos deslocamos para leste. Agora as altitudes raramente passam dos 2000m, mas as paisagens continuam a ser fascinantes. Ainda passámos em algumas aldeias abandonadas, muito comuns nesta zona e apanhámos uma noite de chuva, a única em toda a viagem. Mas com direito a trovoada, e que trovoada! Aliás vir aos Pirenéus e não apanhar uma trovoada a sério não é vir aos Pirenéus… e ainda bem que o Tiago teve a ideia de montarmos acampamento numa clareira em vez de ficar no meio dos pinheiros. Olhem se um trovão caísse num pinheiro?  No dia seguinte, as chuvas permitiram-nos “brincar” um bocadinho na lama. Brincadeiras essas que obrigou ao uso do guincho, a única vez, para retirar a L200 do Tiago que escorregou para uma ribanceira numa curva apertada.

A característica que mais se nota nesta zona, à medida que nos deslocamos em direção à serra de Guara, são os caminhos. Mais pedregosos, e em mau estado. Provavelmente devido à região mais seca, mas a progressão era bastante mais lenta. E este tipo de tereno mais pedregoso e seco é o habitat ideal para um animal muito perigoso e que nem nos lembrámos que poderia aparecer. Tendo em conta que em tantas incursões a Marrocos só vi uma vez escorpiões, encontrar um aqui e mais uns quantos filhotes é obra. E se disser que foi o meu filho Miguel a dar com ele quando levantou uma pedra enquanto brincava… aí a coisa fica assustadora! Tudo aconteceu na noite do 12º dia para o 13º dia, a última com os nossos amigos. Foi um belo de um susto, mas espero que tenha sido uma aprendizagem para os miúdos acima de tudo. Infelizmente as férias dos nossos amigos acabavam e no dia seguinte iriam voltar a Portugal. Nós continuámos o nosso percurso pelos Pirenéus, sozinhos.

As expectativas de circular fora-de-estrada na serra de Guara eram poucas, é um parque natural e as minhas suspeitas estavam corretas. Apesar dos caminhos interditos e muitos deles cortados por falta de manutenção, ainda podemos fazer algumas incursões pela zona e pernoitar às portas do parque natural numa aldeia abandonada. O tipo de vegetação, um misto entre pinheiros e vegetação rasteira espinhosa, misturados com os tons de castanho das rochas e terra, cria uma mistura de cores maravilhosa. Em alguns momentos, pareciam quadros pintados. Isto na zona norte do parque. A zona sul, mais conhecida, tem as famosas gargantas que esperávamos conhecer. Saímos um pouco do percurso logo depois de passarmos o Salto de Roldán, um aglomerado rochoso fora do vulgar e fomos até Alquézar. O objetivo era conhecer as gargantas e as piscinas naturais, mas quando lá chegámos tirámos logo a ideia. Uma quantidade infindável de gente! Nem pensar na situação atual metermo-nos ali, ainda por cima em trilhos estreitos. Andávamos nós há 15 dias completamente isolados, sem ver ninguém, nem mesmo outros veículos 4×4 que poucas vezes vimos, e íamos meter-nos nesta confusão! Olha fomos embora e ficou para uma próxima. Mas diga-se que Alquezar é bem pitoresca.

O fim do percurso nos Pirenéus já se aproximava. Depois de uma noite na zona sul da serra de Guara, bem escondidos, fizemos o último troço nas montanhas. Sempre à beira dos montes que delimitam os Pirenéus, tínhamos dum lado as montanhas e do outro os terrenos cultivados 600m abaixo que se estendem por centenas de kms… um contraste estranhamente interessante. O fim dos Pirenéus ficou marcado por dois belos monumentos. Um natural, o Mallos de Riglos, um aglomerado rochoso que podemos ver desde a pista que descia dos Pirenéus e depois, de uma forma ainda mais impressionante, do Mirador de los Buitres. Foi uma fabulosa despedida destas montanhas que percorremos durante 15 dias seguidos. O outro monumento foi o Castelo de Loarre. Um castelo enorme que nos surpreendeu pelo estado de conservação das muralhas e torres. Deve ter sido dos maiores que já vimos e tendo sido construído a cerca de 1000m de altitude e por cima de uma saliência rochosa, dá para imaginar a imponência do castelo.

O percurso nos Pirenéus tinha chegado ao fim, mas ainda tínhamos a Espanha central para percorrer. Sabia que não conseguiríamos chegar a Ávila, já não tínhamos tempo, mas podia ser que conseguíssemos chegar a Molinos del Duero, junto à albufeira de Cuerda del Pozo. Com as montanhas para trás, os caminhos pedregosos deram lugar às pistas largas e rápidas. E as montanhas e desfiladeiros a campos de cultivo a perder de vista. E logo pouco depois de sairmos dos Pirenéus, chegámos a outro local onde tinha especificamente dirigido o percurso que marquei em casa, o Deserto de Bardenas Reales! À semelhança com o outro deserto espanhol na Andaluzia, o de Tabernas, é uma das poucas regiões semiáridas de Espanha que, devido à baixa precipitação anual, pode ser considerado um deserto. É claro que para quem já foi a Marrocos ou melhor, mais a sul aos verdadeiros desertos, este não é bem um deserto. O Miguel, que já esteve duas vezes em Marrocos, disse logo que não havia ali areia, que não era um deserto! Tem uma certa razão o rapazito. Mas para quem vem dos Pirenéus, daquelas altas montanhas e florestas a perder de vista, o contraste é qualquer coisa de extraordinário. Incrível como em poucos quilómetros a paisagem pode mudar tão abruptamente.

A partir daqui, foi literalmente sempre a andar. Só para dar uma ideia de como foi esta última etapa, num só dia fizemos cerca de 300kms, e praticamente sempre em pista até Molinos del Duero. O contraste de andamento com os caminhos no Pirenéus não podia ser maior. As paisagens não são tão espetaculares é verdade, mas dá gozo conduzir nestas pistas rápidas. E ainda fomos a tempo de brincadeiras no rio Douro. Sim, o mesmo Douro que desagua no nosso Porto! É que ele nasce pouco antes da albufeira de Cuerda del Pozo, que foi o nosso último poiso desta viagem, com um pouco de sabor a Portugal. A albufeira é curiosa, estava muito cheia e a relva, misturada com pequenas rochas redondas, ia mesmo até água. E tem imensos lugares para estar com o carro junto à água, mas também sinalização para não se acampar, que é bem tentador! Devido a isso, subimos um pequeno monte e arranjámos uma linda clareira no meio de pinheiros e carvalhos com relva e tudo. De manhã, mesmo com algum frio, apesar de tudo estávamos a 1200m, o sol da manhã e os filhotes a brincar e a correr, fazem-nos lembrar de como as coisas simples ainda são as melhores.

E esta é também a lição desta viagem. Se não fosse o Covid teríamos ido para outro país, mais longe, mais kms. Teríamos outras histórias para contar, mas não seriam como estas. Nem seriam estas experiências. Seriam melhores? Piores? Não sei, mas o que posso dizer é que esta viagem foi sem dúvida uma das minhas preferidas. Nós temos o privilégio de viver num local da Europa especial para quem gosta de viagens 4×4 ou Overland. Em muitos poucos locais da Europa se pode atravessar uma cadeia montanhosa tão extensa como os Pirenéus, quase sempre em caminhos de terra, e por enquanto ainda é possível. E a experiência de tal viagem é completamente arrebatadora. Não é Africa, Austrália ou a América do Sul, mas nenhum outro país tem algo parecido com o que existe nos Pirenéus. Têm outras coisas que certamente são espetaculares, mas são diferentes, não necessariamente melhores ou piores! Isto para dizer que para fazer viagens incríveis e ter experiências que nos enchem, não é necessário ir ao outro lado do mundo. Aqui perto, a apenas 1 dia de viagem, é possível ter estas experiências e muitas outras, desde que se faça o trabalho de casa e se tenha a disposição certa para estas aventuras. E o trabalho de casa para uma viagem deste género, com esta quantidade de TT, é muito, tal como referi no início. É uma característica europeia. Criar percursos fora-de-estrada na europa é um processo demorado e exaustivo. É certamente mais fácil num país longínquo ir aos locais mais turísticos de um país, ou pagar para um guia ou empresa nos levar de 4×4 a esses locais, mas não é tão gratificante quanto a mim e certamente mais dispendioso!

Nota final: Talvez se perguntem agora, então e o resto do percurso atá Ávila? Não ficou esquecido claro e a meio de Setembro, eu e a Ana deixámos os miúdos com os avós num fds e viemos fazer um raid para adultos. De Molinos del Duero a Ávila, 400kms em TT em dia e meio! Mas não foi sempre a andar, ainda visitámos o Castelo de Ucero em ruínas e fomos ver um mosteiro junto ao rio Duraton, garganta incrível no meio do nada! E quem diria que iriamos pernoitar numa zona de areia que faz lembrar a mata de Leiria?

E assim completámos a travessia da Península Ibérica em fora-de-estrada tal como queríamos!

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